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Pacientes enxaquecosos são mais propensos à dor de cabeça causada por odores

A tese foi defendida no Programa de Pós-Graduação em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento da UFPE pelo neurologista Raimundo Pereira da Silva-Néto.

Por Renata Reynaldo

É comum encontrarmos alguém que, sem explicação aparente, desenvolve crises de dor de cabeça e náuseas e, por não saber os reais motivos, atribui os sintomas a alguma comida indigesta, ao estresse, à ressaca ou à fome. Provavelmente ela nem sabe que faz parte de uma estatística, agora revelada, que aponta que até 70% das pessoas com migrânea, a famosa enxaqueca, têm os sintomas 'disparados' em função dos odores. A osmofobia, como é chamada pela medicina a intolerância a certos cheiros, foi tema da tese de doutorado "Modelo experimental de diferenciação por odores entre migrânea e outras cefaleias primárias", defendida no Programa de Pós-Graduação em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento da UFPE pelo neurologista Raimundo Pereira da Silva-Néto.

No estudo, o médico comprovou estatisticamente que a estimulação pelo cheiro ao perfume desencadeou crises de cefaleia e náusea apenas em pacientes com migrânea e os sintomas ocorreram em menos de duas horas após a exposição do paciente ao odor. A escolha pelo perfume para atuar como 'gatilho' na experiência se deu porque o pesquisador considerou outros estudos que já haviam feito a relação entre odores com sintomas dolorosos. "Portanto, o desencadeamento de cefaleia por odores poderá ser considerado um fator de diferenciação entre migrânea e outras cefaleias primárias e esse gatilho parece muito específico da migrânea", explica o autor. 

Para chegar à conclusão, o pesquisador acionou 158 voluntários diagnosticados com cefaleias primárias – aquelas decorrentes de disfunção cerebral e que não podem ser demonstradas por exames clínicos, como é o caso da migrânea ou enxaqueca – que foram submetidos a odores florais de perfumes. Do grupo, 73 homens e 85 mulheres, houve 72 (45,6%) casos de migrânea e 86 (54,4%) com outras cefaleias primárias. E dos migranosos, 53 (73,6%) eram mulheres e 19 (26,4%), homens; já entre os casos de outras cefaleias primárias, 32 (37,2%) eram mulheres e 54 (62,8%), homens.

Em síntese, a tese também constata que, "além de haver diferença significativa entre os voluntários com diagnóstico de migrânea e aqueles com outras cefaleias primárias, os casos de migrânea, comparados aos de outras cefaleias primárias, apresentaram predomínio do sexo feminino (73,6%), frequência maior que 20 crises no último ano (86,1%), crises com duração de 4 a 72 horas (65,3%), localização unilateral da dor (68,1%), caráter pulsátil (87,5%), piora da cefaleia com atividade física (65,3%), e aura exclusivamente visual (18,1%). 



Segundo Silva-Néto, que é autor, em parceria com seus orientadores –os médicos Mário Fernando Pietro Peres (Hospital Albert Einstein-SP) e Marcelo Moraes Valença (HC-UFPE) –, de artigo científico sobre o tema, "o estudo é o primeiro com o fim de caracterizar a estimulação olfatória como fator desencadeante de crises de cefaleia e de diferenciação entre migrânea e outras cefaleias primárias, além de determinar o tempo de surgimento da cefaleia após exposição do paciente ao odor". Esta associação entre odor e o tipo de cefaleia torna a descoberta relevante para melhorar a acurácia no diagnóstico de migrânea. "Além de ter um forte impacto social porque pacientes que têm cefaleia desencadeada por odores são, constantemente, expostos a substâncias odorantes culminando em uma cefaleia ocupacional", complementa Silva-Néto.  

MECANISMO | De acordo com a pesquisa, existem muitas evidências da associação entre odores e cefaleias primárias, predominantemente migrânea, mas, apesar desse conhecimento, ainda não se sabe o exato mecanismo de ação dos odores como gatilhos do sintoma. "No entanto, um estudo mostrou aumento da atividade do sistema límbico e do tronco cerebral durante os ataques de cefaleia, após estimulação olfatória, apenas nos pacientes com migrânea", atesta a tese, que acrescenta: "este achado apresenta a forte relação entre o olfato e a via trigêmino-nociceptiva na fisiopatologia da migrânea". Há, também, uma hipótese de que o estímulo olfatório excita o cerúleo (locus cœruleus) em pacientes com migrânea e promove a liberação de noradrenalina. Em consequência, há liberação  de duas substâncias inflamatórias e potentes vasodilatadoras, a substância P e o peptídeo geneticamente relacionado à calcitonina (CGRP), que desencadeiam o fenômeno doloroso

O que dá ineditismo à pesquisa é o fato de não haver outro estudo experimental realizado para observar o desencadeamento de cefaleia e seu tempo de aparecimento. Até então, a relação odor-cefaleia era baseada em estudos observacionais, nos quais os pacientes expressaram suas opiniões em resposta aos questionamentos do pesquisador. Já nesta pesquisa, os migranosos foram submetidos, pela primeira vez, à estimulação olfatória e observados sobre o efeito do odor. "Contudo, os achados desta pesquisa não podem ser generalizados para a população geral, porque a amostra estudada se restringiu a uma população de estudantes de Medicina. Além de apresentarem uma pequena média de idade, que interfere na prevalência da migrânea, esses indivíduos têm um maior nível de compreensão para o acompanhamento após sua exposição ao odor", adverte o autor.

Além do artigo científico, que teve repercussão internacional, como citação no Annual Scientific Meeting of the American Headache Society, em Boston (EUA), realizado em junho passado, a tese embasou o livro "Odores e Cefaleia". Ainda com a pesquisa, o professor SIlva-Néto, que ensina na Universidade Federal do Piauí (UFPI), tornou-se referência mundial no tema, tendo sido citado, inclusive, em reportagem da TV australiana ABC News, que publicou no seu portal o conteúdo "When others abhor the scent you adore”.

Pôncio Pilatos também sofria de enxaqueca

Levantamento da pesquisa "Modelo experimental de diferenciação por odores entre migrânea e outras cefaleias primárias" aponta que a relação entre os odores e a migrânea é conhecida desde os primeiros anos da era cristã. Naquela época, havia referência sobre esse tema, como, por exemplo, a de Pôncio Pilatos (5 a.C - 37 d.C), que era migranoso e apresentava crises de cefaleia associada à intensa osmofobia.

Depois, logo no século II, o célebre médico grego Arateus (120-180), nascido na Capadócia, atualmente Turquia, afirmou que o sentido do olfato é alterado durante uma crise de cefaleia e, mais tarde, já no século VII, o médico grego Paulus Aegineta (625-690) ou Paulo de Egina, em seu tratado médico intitulado "Epitomae medicae libri septem", escreveu que existem possíveis fatores desencadeantes de cefaleia, como, por exemplo, os odores fortes.

O estudo também se refere a dados históricos mais recentes, que trazem informações sobre a ação dos odores como gatilho da cefaleia como o relatado no século XIX, quando o médico neurologista britânico William Richard Gowers (1845-1915) registrou que um estímulo olfatório pode desencadear crises de migrânea. "Os achados de que os odores são um gatilho específico para migrânea servem para diferenciá-la de Cefaleia Tipo Tensional (CTT), mas ainda não motivaram sua inclusão como critério diagnóstico", afirma Silva-Néto. No entanto, segundo o pesquisador, no apêndice da International Classification of Headache Disorders, Second Editon (ICHD-2) (IHS, 2004), a osmofobia foi proposta como um critério adicional para o diagnóstico de migrânea, entre os sintomas que acompanham a cefaleia.

Mais informações
Programa de Pós-Graduação em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento da UFPE
https://www.ufpe.br/posneuro

Raimundo Pereira Silva-Néto
Centro de Neurologia e Cefaleia do Piauí, Teresina (PI) 
(86) 3221.9000
neurocefaleia@terra.com.br

 

Data da última modificação: 01/11/2017, 15:44